28 outubro 2012

A vampira grega: Uma ameaça aos inimigos dos artistas



Um grande artista é um vampiro. Nós treinamos para ser assim; treinamos para entrar no Panteão. É claro que somos punidos por isso, mas não mais pelos deuses, que têm se retirado para sempre em desespero – tão tênue é seu reflexo sobre os humanos que uma vez os desafiaram –, e sim pelas mentes minúsculas de voyeurs paralisados que são incapazes de discutir nosso trabalho em qualquer nível, jamais literal, e agora nem figurativo.



O foco da bruxa está na produção de um novo jogo de palavras, de uma nova virada na música, de uma nova luta, na imolação de uma mentira, se isso for preciso para a criação de uma obra-prima. A grande bruxa Maryanne Amacher (1938-2009), que foi derrubada somente por um estranho acidente, tinha a casa cheia até o teto de trabalhos incomparáveis e dormia no chão de cada estúdio para o qual ela foi convidada em todo o mundo – e criou os mais bizarros trabalhos com o passar dos anos.


A vampira sabe que somente sangue novo irá sustentá-la. Sangue novo, novas pesquisas, o estudo de uma nova língua, a desconstrução e reconstrução propositais, novas medidas, novos arranjos, novos escritos, atuações difíceis – que mais tarde se tornam grandes pela perseverança.
Você, que espera pelo tique-taque do relógio para que possa, então, um dia proclamar que um de nós está se aproximando da senilidade, deveria imaginar em vez disso a sua própria vida, que está se desvanecendo atrás de você, como um reflexo de suas partes pudendas, desprezíveis, penduradas, como os flancos de um animal amarrado por muito tempo sem alimento, sozinho e sem amor.
Cuidado com a vampira, que é escrava somente de sua imaginação e não de uma nova geração de borboletas de alfinetes que pintam a sua vida. A vampira vê diretamente através de você, seu assassino! Ela sabe que você quer substituí-la, que você não pode esperá-la morrer. 
Para o gênio, é uma doença que não pode ser encomendada a prestação ou eliminada. Enquanto você está acorrentado à sua cerca, peço para que um dia um vampiro não se torne muito faminto em seu país, agarre seu rabo com os dentes e esfole você vivo.



DIAMANDA GALÁS

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